Kim e Trump assinam acordo que prevê desnuclearização da península Coreana

O ditador norte-coreano, Kim Jon-un (à esq.), cumprimenta o presidente dos EUA, Donald Trump, em Singapura

O presidente americano, Donald Trump, e o ditador norte-coreano, Kim Jong-un, assinaram  nesta terça-feira (12), em Singapura, um documento que prevê a desnuclearização da península Coreana. O acordo também diz que os dois países se comprometem à “paz e prosperidade” na região.

Não há detalhes ou prazos para o processo de desnuclearização. Para Sung Kim, embaixador dos EUA nas Filipinas que participou das negociações, “ainda há muito trabalho a ser feito”.

Antes de assinar e divulgar o documento, os líderes almoçaram juntos e falaram à imprensa. Para Trump, a reunião foi “melhor do que todos poderiam esperar”, já o líder norte-coreano afirmou que “o mundo verá uma grande mudança” após o encontro desta terça. Ele também disse que “muitas pessoas no mundo pensarão que isso é uma fantasia de um filme de ficção científica”.

O presidente dos EUA contou que irá convidar Kim para uma visita à Casa Branca.

Os líderes apertaram as mãos em Singapura às 9h04 desta terça-feira (22h04 de segunda, no horário de Brasília), dando início a um encontro histórico e até há pouco inimaginável, após décadas de tensões provocadas pelas ambições nucleares de Pyongyang.  Folha de São Paulo

Esta foi a primeira vez que um mandatário dos EUA se reuniu com um líder da Coreia do Norte. Em 2009, Bill Clinton, então já fora da Casa Branca, encontrou-se com Kim Jong-il (pai de Jong-un), à época nº 1 do regime.

Quinze anos antes, em 1994, Jimmy Carter, também já longe da Presidência americana, reunira-se com Kim Il-sung, avô de Jong-un.

Todas as tentativas americanas de negociação com Pyongyang desde então, no entanto, apesar do clima inicial de esperança, não foram para frente porque os norte-coreanos estavam blefando.

Minutos após se cumprimentarem no hotel Capella, na ilha de Sentosa, Kim e Trump posaram para fotos e se dirigiram a um salão com seus tradutores.

Em breve declaração à imprensa, Trump afirmou esperar que a cúpula fosse “um sucesso” e desse início a “uma excelente relação”, ao que Kim assentiu com um sorriso.

O ditador norte-coreano então acrescentou: “Foi difícil chegar até aqui. Preconceitos e práticas antigas atuaram como obstáculos, mas nós os superamos e aqui estamos”.

Após as saudações, os dois permaneceram a portas fechadas com intérpretes por 38 minutos.

O mandatário dos EUA havia sinalizado que adotaria uma postura flexível nesse primeiro contato, o que poderia incluir certa dose de improviso, a fim de ganhar a confiança de seu interlocutor.

A abordagem era considerada temerária por alguns membros de seu estafe, porque poderia se traduzir em concessões indevidas ao norte-coreano —segundo a imprensa americana, os dois lados se encontraram ao menos cinco vezes nas últimas duas semanas para negociar os termos da conversa entre os líderes.

Na saída desse tête-à-tête, Kim afirmou acreditar que o encontro era um “bom prelúdio para a paz”. Trump concordou e disse que os dois serão bem-sucedidos.

O norte-coreano também disse que muitas pessoas vão imaginar que a cúpula entre os dois parece saída de um filme de ficção científica.

Em seguida, a reunião passou a ser acompanhada por assessores dos dois lados. Ao lado de Trump estavam o chefe de gabinete, John Kelly, o secretário de Estado, Mike Pompeo, e o assessor de Segurança Nacional, John Bolton.

A comitiva norte-coreana incluía Kim Yong-chol, número 2 do Partido dos Trabalhadores e ex-chefe da agência estatal de espionagem, Ri Yong-ho, ministro das Relações Exteriores, e Ri Su-yong, ex-chanceler e um dos principais diplomatas de Pyongyang.

Antes do começo dos trabalhos em grupo, Trump afirmou que “trabalhando juntos vamos cuidar deste grande dilema [a desnuclearização], vamos solucioná-lo”.

As delegações interromperam as conversas para almoçar por volta das 11h30 locais (0h30 no Brasil) e a expectativa era que Trump concedesse uma entrevista coletiva às 16h de terça (5h em Brasília).

Segundo o “New York Times”, o comunicado a ser divulgado após o fim do encontro deveria ter três seções: uma sobre desnuclearização, a segunda cobrindo garantias de segurança para Pyongyang e a última listando os próximos passos de cada lado.

Um dos primeiros a reagir aos primeiros relatos e imagens do encontro foi o presidente da Coreia do Sul, que esteve com Kim em abril. Ele disse ter passado a noite de segunda para terça em claro.

“Eu, assim como meu povo, espero sinceramente que essa cúpula seja bem-sucedida e conduza a todos, nas Coreias do Sul e do Norte, e nos EUA, na direção de uma nova era de desnuclearização completa e de paz”, declarou, em Seul.

Apesar da aproximação diplomática dos últimos meses, que sucedeu a um período de trocas de ameaças e insultos pessoais, persistem muitas dúvidas sobre a cúpula.

Trump, com pouco mais de 500 dias na Casa Branca, tem um dos momentos mais importantes de sua Presidência no cenário internacional, arena em que tem desagradado muitos líderes, inclusive alguns de aliados históricos dos EUA.

No último fim de semana, retirou seu país da declaração final da cúpula do G7 —grupo de sete grandes potências— depois de ficar contrariado com uma fala do premiê canadense, Justin Trudeau.

Em uma série de publicações em uma rede social horas antes do evento em Singapura, Trump indicou que os preparativos para o encontro “iam bem”.

“Em breve, todos saberemos se pode haver ou não um acordo real, diferentemente dos do passado”, escreveu.

A reunião em Singapura deve ser apenas o marco inicial de negociações que podem durar meses e até anos para serem finalizadas. Isso se elas forem bem-sucedidas.

Antes da cúpula, Pompeo afirmou que a cúpula estabelecer os parâmetros para o trabalho duro que aconteceria na sequência.

“Estamos preparados para tomar atitudes que vão dar a certeza [à Coreia do Norte] de que a desnuclearização não é algo que vai terminar mal para eles –na verdade, é o oposto.”

Ele acrescentou, no entanto, que não houve mudança na postura de Washington sobre a necessidade de o abandono do programa nuclear por Pyongyang ser “completo, verificável e irreversível”.

A ditadura norte-coreana, de seu lado, entende que a expressão “desnuclearização da península Coreana” envolve uma retirada de tropas americanas da Coreia do Sul e a redução do “guarda-chuva nuclear” com que Washington protege seus aliados asiáticos, Seul e Tóquio.

Para os jornalistas do New York Times David E. Sanger, especialista em segurança nacional, e Choe Sang-Hun, que trabalha na Coreia do Sul, Não importa o resultado da reunião, Kim já saiu ganhando.

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