Disney vai reabrir, mas os visitantes não poderão abraçar o Mickey

DICAS: Planejando sua viagem à Disney? O que fazer e o que não ...

O Walt Disney World, um dos maiores locais de turismo no planeta, tem um plano para reabrir completamente na metade de julho.

Mas os protocolos de segurança necessários —limitar o número de visitantes, tornar obrigatório o uso de máscaras, empregar grupos móveis de vigilância para fiscalizar o distanciamento social, não permitir que os visitantes se aproximem de Mickey Mouse— nos mostram como será difícil operar atrações antes muito lucrativas, à medida que os Estados Unidos se preparam para uma reabertura mais ampla.

“Estamos avançando lentamente porque queremos fazer progresso constante sem ter de recuar”, disse Bob Chapek, o presidente-executivo da Disney, por telefone, da Flórida, na quarta-feira. “O risco é ir longe demais, rápido demais”.

Os parques temáticos da Disney nos Estados Unidos, com suas entradas cenográficas que representam uma versão idealizada da vida de uma pequena cidade do país, têm grande presença no imaginário do país como um símbolo do americanismo.

O Disney World está fechado desde 15 de março por causa da pandemia, e sua reabertura porta um certo simbolismo, uma tentativa de retomar pelo menos a aparência de uma vida normal, e marca um esforço da parte da empresa, que sofreu um forte abalo causado pelo coronavírus, para demonstrar que uma visita ao parque continua a ser um rito de passagem cultural para muitas crianças.

O Grupo de Trabalho para a Recuperação do Condado de Orange, em Orlando, aprovou os planos de reabertura do Disney World e do Sea World na quarta-feira (27), mas pressionou os executivos das duas companhias sobre como eles fiscalizariam o uso de máscaras, uma questão que se tornou contenciosa à medida que mais pessoas retornam aos lugares públicos, e que pode criar dificuldade para os visitantes no calor da Flórida.

Jim MacPhee, vice-presidente sênior de operação do Disney World, disse que as placas teriam de conter “linguagem severa” e que “equipes de alta energia” de empregados circulariam pelo parque lembrando aos visitantes a obrigatoriedade do uso de máscaras. Ele disse que a Disney poderia estabelecer “zonas de relaxamento” nas quais os visitantes poderiam tirar as máscaras.

O Disney World consiste de seis parques com ingressos separados, que recebem um total combinado de 93 milhões de visitantes por ano. Os dois mais populares, Animal Kingdom e Magic Kingdom, reabrirão em 11 de julho. Os outros grandes parques do Disney World, Epcot e Hollywood Studios, reabrirão em 15 de julho.

A NBA vem negociando com a Disney sobre uma possível retomada dos treinos e jogos da temporada de basquete no resort, que hospedaria os jogadores. Chapek disse que estava “muito otimista” sobre chegar a um acordo com a liga. (A ESPN, controlada pela Disney, é parceira televisiva da NBA.)

A Major League Soccer também está negociando para reiniciar a temporada do futebol no ESPN Wide World of Sports Complex, parte do resort, que Chapek afirmou dispor de forte segurança e de capacidades de transmissão esportiva de fácil acesso.

Chapek se recusou a dizer quantas pessoas a Disney admitiria nos parques. O número deve ser inferior à metade da capacidade anterior ao surto, pelo menos inicialmente. Os grandes parques da Disney podem receber até 80 mil pessoas ao dia. Na China, onde a Disneyland de Xangai reabriu em 11 de maio, o governo limitou a capacidade do parque a um terço da sua lotação máxima.

Visitar qualquer parque temático será muito diferente do que era no passado, ao menos até que uma vacina esteja amplamente disponível. O plano de reabertura do parque Universal envolve vagas alternadas de estacionamento e uma ampliação nos pedidos via celular, nos restaurantes.

Chapek disse que alguns assentos ficariam vazios em atrações como o Pirates of the Caribbean, para separar os visitantes, e a capacidade dos restaurantes seria reduzida à metade. As lojas estarão equipadas com novas placas: “Ajudem-nos a proteger a Magia. Por favor limitem o manuseio dos produtos”.

E a Disney adotará um novo sistema de reservas para entrada nos parques; os visitantes não poderão mais chegar e comprar ingressos diretamente na bilheteria. Todos os visitantes terão sua temperatura verificada.

A Disney começará a trabalhar com os sindicatos locais a fim de reabrir pelo menos alguns dos 18 hotéis do Disney World. “Vamos alterar a capacidade dos hotéis de acordo com a necessidade”, disse Chapek, apontando que cerca de 50% dos visitantes do Disney World tipicamente se hospedam em hotéis controlados pela Disney.

A Disney não revelou datas de reabertura para os dois menores de seus seis parques na Flórida, Typhoon Lagoon e Blizzard Beach, que oferecem escorregadores de água. O Disney Vacation Club, uma operação de “timeshare” que opera 3.200 unidades de hospedagem no resort, reabrirá em 22 de junho.

O Disney Springs, um shopping center de 485 mil metros quadrados adjacente ao parque, começou a reabrir em 20 de maio. “Os hóspedes vêm respeitando muito as regras”, disse Chapek sobre a obrigatoriedade do uso de máscaras no Disney Springs.

Os parques temáticos da Disney na Califórnia, França, Japão e Hong Kong continuam fechados. A companhia não ofereceu indicações sobre quando eles reabririam.

“Não há como esconder como isso vai ser difícil do ponto de vista de gestão”, afirmou Craig Moffett, analista do setor de mídia no grupo de pesquisa MoffettNathanson, em uma recente conversa com clientes.

“Haverá uma virada geracional na disposição das pessoas a participar de agrupamentos sociais? Será que uma geração de consumidores considerará desconfortável se acomodar em um carrinho de montanha russa ao lado de um desconhecido? Simplesmente não sabemos as respostas”.

O turismo é a atividade econômica mais forte em Orlando, e responde pelos empregos de 41% da força de trabalho da cidade, de acordo com a organização de promoção do turismo Visit Orlando. Os outros parques temáticos localizados na região central da Flórida começarão a reabrir nesta segunda (1º), quando o Legoland, controlado pela Merlin Entertainment, do Reino Unido, abrirá as portas.

Os três parques temáticos do Universal em Orlando, que abriga o Wizarding World of Harry Potter, vão reabrir em 5 de junho. O SeaWorld, que funciona como um zoológico marinho (“jante com as orcas”) e também opera grandes montanhas-russas, vai recomeçar a operar em 11 de junho.

Mas o Disney World é o principal motor do mercado. O tamanho do resort é difícil de conceber. Trata-se do maior empregador dos Estados Unidos, em termos de concentração geográfica, com 75 mil empregos. A frota de ônibus do Disney World é maior que a da cidade de Saint Louis. Os hóspedes devoram mais de um milhão de coxas de peru assadas a cada ano.

Os parques temáticos têm custos elevados. É preciso um número mínimo de pessoas para operar as atrações, e uma quantidade mínima de eletricidade para acioná-las. Há também os custos de manutenção, impostos e seguro.

Para cobrir essas despesas —ou seja, para se manter fora do vermelho— a Disney precisa vender um número mínimo de ingressos. A empresa também ganha dinheiro com a venda de comida e mercadorias, e com o aluguel de quartos de hotel, e tudo isso é movido pelo número de hóspedes.

Assim, como a Disney conseguirá ganhar dinheiro enquanto os parques tiverem de operar abaixo da capacidade?

O analista de mídia Michael Nathanson afirmou em email que ele não tinha como avaliar a situação com clareza. (“Nenhuma, zero”, foi o que ele disse, exatamente.) Jessica Reif Ehrlich, analista do Bank of America, disse que a Disney seria capaz de “reduzir a capacidade por um determinado período de tempo e ainda se manter lucrativa —bem, bem abaixo dos 50% em certos lugares”). Ela acrescentou que “a Disney pode fazer mais coisas do que imaginamos para conter custos. Manter menos caixas de plantão, reduzir o número de carrinhos em operação em cada atração. Manter alguns hotéis fechados”.

Não haverá as características queimas de fogo de artifício nos parques, ou desfiles, que envolvem centenas de figurantes e criam problemas de controle de público.

Chapek posicionou a reabertura como “uma contribuição líquida positiva” para as operações de parques da companhia. Isso significa que o Disney World talvez não seja lucrativo inicialmente. No entanto, a receita gerada por uma reabertura limitada deve exceder os custos associados à reabertura e cobrir uma boa proporção dos custos fixos do complexo.

Em outras palavras, a Disney pode continuar a perder dinheiro até que a capacidade seja expandida. Mas menos do que perderia caso os parques continuassem fechados.

A Disney sofreu um abalo forte com a pandemia, com o fechamento de seus parques temáticos, adiamento da estreia de filmes e falta de esportes ao vivo para transmissão nos canais da ESPN. O lucro total da companhia no seu trimestre mais recente caiu em 91% ante o mesmo período um ano atrás.

Com o negócio da televisão enfrentando desafios significativos na era do streaming, os parques temáticos emergiram como uma fonte surpreendentemente forte de lucros para as companhias de mídia.

No ano fiscal de 2019, a Walt Disney Parks and Resorts teve lucro operacional de mais de US$ 4,5 bilhões, mais de 100% de aumento ante os resultados da divisão seis anos antes.

As cinco maiores companhias de parques temáticos dos Estados Unidos —Disney, Universal, Cedar Fair, Six Flags e SeaWorld— tiveram 288 milhões de visitantes, no total, no ano passado, de acordo com a organização setorial Themed Entertainment Association.

O crescimento foi alimentado por centenas de milhões de dólares em novas atrações e novos hotéis em resorts; pela redução nas preocupações de segurança que restavam depois dos atentados de 11 de setembro (e os ataques de 2015 em Paris e San Bernardino), que levaram a Disney e o Universal a instalar detectores de metais em seus portões de entrada); e pela chamada economia da experiência, na qual as pessoas —especialmente as da geração milênio— começaram a ver eventos memoráveis como obrigatórios, e não como despesas opcionais.

Um ingresso para adulto, em alta temporada, no Disney World agora custa US$ 135 (R$ 732), ante US$ 82 (R$ 445) uma década atrás, e a demanda não caiu. As filas ainda se estendem por uma hora ou mais nas atrações populares como o Seven Dwarfs Mine Train e Avatar Flight of Passage.

Chapek disse que o “status quo” continuaria, quanto aos preços, o que significa que a Disney não vê necessidade de oferecer descontos para atrair os visitantes de volta. “Não teremos problemas de demanda”, ele disse.

Alguns observadores de parques temáticos demonstram menos entusiasmo. Nada de fogos de artifício? De fotos com Cinderela?

“A maioria dos fãs está esperando para ver”, disse Robert Niles, editor do site noticioso Theme Park Insider. “Dada a despesa, especialmente em meio a uma recessão e com forte desemprego, muita gente vai escolher ficar em casa até as coisas voltarem ao normal”.

Sue Pisaturo, que fundou a Small World Vacations, uma agência em Nova Jersey que se especializa em viagens para a Disney, disse que o interesse vem sendo “surpreendentemente forte” nas últimas semanas. “Algumas pessoas claramente estão loucas para ir”, ela disse.

Mas ela previu que a exigência de máscaras manteria algumas pessoas afastadas. Heather Abbott Vogel, agente na Destinations in Florida Travel, concorda.

“Clientes me disseram que, se tiverem de usar máscara, preferem ficar em casa”, disse Abbott.

The New York Times

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.

error: Content is protected !!
%d blogueiros gostam disto: