Impopular, governo Temer vive paradoxo com agenda ambiciosa

Michel e Marcela Temer – Beto Barata - 8.mar.2017/PR

O governo Michel Temer (PMDB) completará um ano na próxima sexta-feira (12) sob o signo do paradoxo.

Dono de altíssima impopularidade e de uma coleção de crises políticas, o presidente até aqui conseguiu fazer avançar extensa agenda legislativa, talvez a mais ambiciosa em escopo desde a redemocratização.

Como provam os 61% que reprovam o governo e os 71% que rejeitam especificamente a reforma da Previdência segundo a mais recente pesquisa Datafolha, não é uma agenda para todos os gostos.

A profunda mexida no sistema de aposentadorias se tornou a “mãe de todas as batalhas”, como qualificou o ministro Antonio Imbassahy (Secretaria de Governo, do PSDB), responsável pela interlocução do Planalto com o Congresso. “Mas isso escamoteia as outras batalhas que já vencemos. É um avanço sem precedentes”, afirma. As informações são do reporter Igor Gielow, da Folha de são Paulo. 

Com 38% do seu curto mandato de 2 anos, 7 meses e 20 dias completados, Temer já disse que a impopularidade é um passaporte para fazer o que considera correto –e que também lhe garante apoio na elite empresarial, ao seu lado desde que Dilma Rousseff (PT) foi afastada e, depois, impedida.

Conseguiu ver medidas polêmicas aprovadas no Congresso: o teto de gastos, a desvinculação de receitas, o fim da exclusividade da Petrobras no pré-sal, a lei de governança das estatais, a reforma do ensino médio. Avançaram a reforma trabalhista e, a trancos e barrancos, a mudança previdenciária aprovada em comissão na Câmara.

Como se vê, a seara econômica é sua prioridade, e foi de lá que saíram as melhores notícias até aqui para o governo, na agenda não parlamentar: a queda da inflação, que porém teve na recessão brutal uma forte aliada, a consequente queda nos juros e uma sacada popular: a liberação de estimados R$ 35 bilhões de contas inativas do Fundo de Garantia.

“Isso tudo foi feito para agradar o empresariado. Reduziram os direitos da classe trabalhadora. Em um ano, fizeram o máximo possível de modificações legais, e agora ameaçam mexer com a legislação fundiária. Como o país ainda está no buraco, o próximo governo terá de rediscutir tudo isso que fizeram”, sentencia o líder do PT na Câmara, Carlos Zarattini (SP).

Para ele, o discurso de que a melhora de expectativas com as reformas será sentida na economia é enganoso. “Temer agravou a crise, veja o desemprego recorde.”

Imbassahy rebate: “Quem mais reclama é quem tem seu privilégio atingido, como no caso do imposto sindical extinto na reforma em discussão. O brasileiro vai ver a melhora depois, e os sinais na economia já estão aí”.
Se há fortes debates sobre a agenda de Temer, que levaram até a uma tentativa de greve geral na semana retrasada, no campo político o paradoxo se faz mais agudo.

O presidente montou um esquema de poder convencional, mas eficaz no papel.

Dos seus 28 ministros, 20 vieram do Parlamento, o que teoricamente amplia o comprometimento de partidos e bancadas com o governo. Não é tão óbvio, tanto que o PSDB busca virar o voto de talvez metade de sua bancada na Câmara para apoiar a reforma da Previdência.

Deixando a área econômica blindada com nomes que eram unanimidade no mercado, Temer acendeu velas a duas deidades. “Esse foi o acerto chave”, diz Imbassahy. Só que a Operação Lava Jato, devastando o cenário político desde 2014, garantiu instabilidade ao arranjo.

Além do próprio Temer, que é citado mas não investigado por acusações anteriores a seu mandato, nada menos que oito ministros estão no alvo da investigação e serão afastados caso sejam denunciados –linha de corte malandra, já que a morosidade judicial os favorece.

Mas o dano de imagem está feito. Segundo o Datafolha, 73% dos brasileiros acham que Temer está envolvido no escândalo, que atingiu em cheio PMDB e PSDB.

No campo simbólico, o anacronismo de um ministério quase exclusivamente branco e masculino já está precificado. As gafes de Temer quando fala sobre condição das mulheres ou os arroubos conservadores de ministros, também. A crítica, crê o governo, tende a encastelar-se em nichos de redes sociais.

Com tudo isso, é possível dizer que, para usar a figura de linguagem do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso aplicada ao governo, a pinguela está resistindo.

A ameaça de ser cassado pelo Tribunal Superior Eleitoral, por irregularidades da chapa com Dilma em 2014, parece afastada por ora, e o governo sobreviveu a oito trocas ministeriais até aqui, quase todas traumáticas.

O que vem à frente? “A guerra não vai acabar na Previdência. Logo teremos que enfrentar a simplificação do sistema tributário”, afirma Imbassahy, por óbvio um vendedor da vitória na “mãe de todas as batalhas”.

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