PF prende gerente suspeito de fraudar seguro a pescadores

A Polícia Federal (PF) prendeu na manhã desta quarta-feira o gerente regional do Trabalho em Caxias do Sul (RS), Julio Cesar Goss, suspeito de fraudar a concessão de mais de 7 mil seguros-defeso a pescadores. Policiais federais também cumpriram mandados de busca e apreensão na casa do funcionário e na sede da Superintendência do Trabalho na cidade, de onde levaram o computador usado por Julio Cesar.

Nas buscas, foram apreendidas listas de beneficiários e cerca de R$ 5 mil. A história do funcionário foi revelada nesta quarta em reportagem do GLOBO, que descobriu que o nome dele encabeça uma lista de 50 pessoas suspeitas de operarem as maiores fraudes no seguro-desemprego e no seguro-defeso entre 2016 e 2018. A lista foi elaborada pelo Ministério do Trabalho e encaminhada à PF.

A reportagem esteve em Caxias do Sul no último dia 17, quando conversou com Julio Cesar sobre a suspeita de que seu login foi usado para destravar mais de 7 mil seguros-defeso, com pagamentos efetuados na ordem de R$ 13 milhões e liberação prevista num total de R$ 24 milhões – parte acabou bloqueada. Desde 2015, não é mais o Ministério do Trabalho que faz as liberações do seguro-defeso, o seguro-desemprego concedido a pescadores artesanais durante os meses em que não podem pescar em razão da reprodução dos peixes. Esta atribuição agora é do INSS. As informações são de O Globo.

Mesmo assim, o login de Julio Cesar aparece como responsável por mudanças no PIS dos trabalhadores, o que permitiria o destravamento da liberação do dinheiro.

– Eu desconfio, para falar bem a verdade, que deve ser clonagem de senha. Aqui (em Caxias do Sul) e lá (Macapá) também. Aí o pessoal está investigando, para ver como é que é – disse o gerente do Trabalho ao GLOBO no último dia 17.

No fim de dezembro do ano passado, Julio Cesar virou réu na Justiça Federal no Amapá, por suspeita de fraudes com seguro-defeso na região. Ele atuou no estado até 2015, quando retornou a Caxias do Sul. Em outubro de 2017, virou gerente do Trabalho na cidade. É o único a operar – com seu login, senha e computador – o sistema do seguro-desemprego na região. Desde então, surgiram novas suspeitas de fraudes, em escala bem maior do que a registrada na denúncia do Ministério Público Federal (MPF) no Amapá.

A PF decidiu pedir a prisão temporária do servidor na última quinta-feira, 19. O MPF concordou e a Justiça Federal determinou a prisão as duas buscas na noite do dia seguinte. No começo da manhã desta quarta, a PF cumpriu os mandados, numa operação chamada de Timoneiro.

Os investigadores consideraram “anormal” e “privilegiado” o acesso de Julio Cesar ao sistema, com alterações que levavam ao destravamento de pagamentos por outro órgão, o INSS, e não pelo órgão onde atua, o Ministério do Trabalho, que não tem mais essa atribuição. O funcionário podia alterar cadastros, segundo as primeiras constatações da PF.

Caxias do Sul é uma cidade sem rio, sem litoral e sem pescadores. A PF já identificou beneficiários do seguro-defeso entre as 7 mil liberações associadas ao login do gerente em Caxias. São pessoas que estão principalmente no Pará e no Amapá. Os próximos passos da investigação, agora, são mapear quem são essas pessoas e se há beneficiários fictícios entre eles, uma prática comum detectada em outras investigações da PF.

As técnicas utilizadas até agora pela PF desconstroem a justificativa dada por Julio Cesar, de que teve seus login e senha clonados, segundo os primeiros passos da investigação. O servidor presta depoimento na PF em Caxias do Sul nesta quarta. Terá de explicar, por exemplo, o que é a lista de beneficiários apreendida por policiais no cumprimento do mandado de busca.

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