Lula tentou combinar falso testemunho, diz Palocci

O delator Antonio Palocci afirma que, em 2014, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silvao procurou para tentar combinar falso testemunho sobre encontros com João Carlos de Medeiros Ferraz, o ex-gerente da área de Finanças da Petrobrás que montou e virou presidente da Sete Brasil – empresa criada e contratada por US$ 22 bilhões para fornecer os primeiros 28 navios-sondas para exploração os poços de petróleo do pré-sal. A proposta teria sido feita quando a Operação Lava Jato já estava nas ruas e começava a chegar no esquema de corrupção nos negócios da estatal.

“Ele (Ferraz) foi falar com o presidente Lula sobre as dificuldades que ele tinha na Sete, pedindo apoio”, afirmou o ex-ministro da Fazenda do primeiro governo do PT e ex-Casa Civil de Dilma Rousseff. “O próprio presidente Lula me falou, porque ele (Ferraz) foi duas vezes ao presidente Lula e o presidente Lula queria depois que soube que o João Ferraz tinha pego propina, o presidente Lula queria que eu assumisse que eu tinha levado o Ferraz lá.”

Palocci narrou em um dos termos de seu acordo de colaboração premiada fechado com a Polícia Federal em Curitiba, homologado em junho, e que serve também para investigação da Operação Greenfield, sobre desvios em fundos de pensão de estatais, que o ex-presidente da Sete Brasil buscou apoio de Lula quando ele já não era mais presidente, entre 2012 e 2013, para os negócios da empresa. Ricardo Brandt, enviado especial a Curitiba, Julia Affonso e Luiz Vassallo – O Estado de São Paulo

Formada pela Petrobrás em sociedade com investidores, entre eles os fundos de pensão de estatais Previ, Funcef e Petros, e os bancos BTG, Santander e Bradesco, a Sete serviu para contratar os estaleiros para construção dos primeiros 28 navios-sondas e fornece-los em funcionamento para a estatal.

Em 2014, a Lava Jato descobriu que todos os contratos tinham acerto de 1% de propinas, que era divididas entre políticos do PT e os agentes públicos envolvidos. O ex-gerente de Engenharia da Petrobrás Pedro Barusco – que era uma área dominada pelo partido – foi o primeiro a confessar o esquema. Como Ferraz, ele ajudou a criar a Sete Brasil e em 2011 saiu da estatal para ser diretor de projetos na empresa. Ferraz outro ex-executivo da Sete Brasil, Eduardo Musa, fecharam delação em 2015, confirmaram o revelado por Barusco e terem recebido propinas nos negócios de navios-sondas.

Palocci afirma que 2014 o ex-presidente Lula queria que ele assumisse a responsabilidade por ter levado Ferraz até ele para tratar dos negócios das sondas do pré-sal, “porque percebe que o assunto pode chegar nele”. Relata ainda que avisou o ex-presidente que não assumiria a responsabilidade e sobre os riscos. “Eu não concordei com ele, falei que ele deveria falar como foram essas visitas, quem marcou e não tinha porque falar que eu tinha levado porque essa mentira ia aparecer depois.”

O delator é enfático nesse trecho: “Eu sei que o Ferraz esteve pelo menos duas vezes com o ex-presidente Lula”.

A Polícia Federal recuperou no mês passado os arquivos apreendidos na sede do Instituto Lula elementos de prova sobre os encontros do ex-presidente com o representante da Sete Brasil que reforçam as afirmações do delator. São trocas de e-mails entre o ex-presidente da Sete Brasil e a assessora direta do ex-presidente Clara Ant, mandados para o Instituto Lula.

Um deles de agosto de 2012 indica que o destinatário dos mensagens de Ferraz era Lula. “Conforme combinamos na última 6.ª feira, sirvo-me da presente para atualiza-la a respeito do assunto em referência. Porém, antes de entrar em detalhes a respeito da questão específica, gostaria que você fosse portadora ao meu querido líder e destinatários dessas informações no sentido de que fiquei extremamente feliz com as notícias hoje veiculadas sobre a sua saúde”, escreve Ferraz.

“Todos nós precisamos muito dele e de suas orientações e sabermos que ele está em processo de franca recuperação nos enche de esperanças e felicidades.” Em 2012 Lula se recuperada depois de um tratamento contra câncer na laringe iniciado no final de 2011.

Documento da equipe de peritos da Lava Jato registra que os e-mails do Instituto Lula mostram que o ex-presidente se “encontrava informado pari e passu da fase final do processo de contratação das Sondas com a Odebecht, mesmo após sua saída do governo”.

Ferraz agradece em uma das mensagens Clara Ant e “ao destinatário deste e-mail todo o fundamental apoio para que fosse possível chegarmos a este momento”.

“Vale notar que temos investidores e recursos financeiros suficientes para realizarmos novos investimentos em diferentes setores industriais do País, diversificando investimentos em relação às nossas sondas.”

O negócio de US$ 22 bilhões com cinco estaleiros controlados por empreiteiras do cartel que fatiava obras de refinarias na Petrobrás – como Odebercht, OAS e Engevix – envolvia propinas para o PT, seus políticos e agentes públicos indicados.

Delatores. João Carlos de Medeiros Ferraz é figura central nesse negócio. Ex-executivo da área de finanças da Petrobrás ele deixou a companhia para ser o primeiro presidente da Sete Brasil, a pedido do então diretor Almir Barbassa. O então gerente de Engenharia da estatal, Pedro Barusco, foi ser o diretor de operações da empresa.

No PT e no governo, Palocci foi um dos pilares de formação do partido e da primeira vitória de Lula em 2002 – após três tentativas. Homem de confiança do ex-presidente, ele diz que mesmo fora do governo era chamado para ser a ponte com os empresários.

“Esse esquema foi implantado pelo próprio Barusco, e pelo que ele me informou, em conjunto com o João Vaccari (ex-tesoureiro do PT). Os dois negociaram com os estaleiros o pagamento de comissão de 0,9% sobre o valor total de cada contrato”, contou Ferraz em depoimento prestado em julho de 2016 a Moro, em ação penal sobre o caso Sete Brasil. O delator contou como abriu a conta no banco Cramer para receber sua parte da corrupção, em uma viagem que fez a Itália com Barusco para ver o Grande Prêmio de Fórmula 1 no circuito de Monza, a convite da Petrobrás.

Tanto Palocci como Ferraz disseram o mesmo ao negarem que o nome do executivo tinha sido indicado pelo ex-ministro para o cargo na Sete Brasil. Em seu acordo, Ferraz disse que o ex-tesoureiro do PT João Vaccari Neto era quem dizia que ele tinha sido indicado por Palocci.

O ex-presidente da Sete afirmou que tratou de propinas com Vaccari e com Barusco.

Palocci detalhou na delação as ordens de arrecadação de propina dadas por Lula antes da criação da Sete Brasil e sua atuação posterior para manter o negócio. No Termo 01 da delação, tornado público pelo juiz federal Sérgio Moro, da Lava Jato em Curitiba, no dia 1.º, relata uma suposta reunião na biblioteca do Palácio da Alvorada, no início de 2010, em que o ex-presidente teria exigido que os contratos do pré-sal fossem feitos com estaleiros no Brasil e que os contratos pagassem a campanha de Dilma Rousseff, sua sucessora – eleita naquele ano, reeleita em 2014 e cassada em 2016.

As revelações sobre o pedido de Lula fazem parte do acordo e parte delas foram citadas em depoimento prestado à Polícia Federal em consequência de sua delação com a Lava Jato, no âmbito da Operação Greenfield, de Brasília – que apura desvios nos fundos de pensão.

COM A PALAVRA, A DEFESA DE LULA

A defesa do ex-presidente Lula disse que Palocci não apresentou nenhuma prova contra o ex-presidente, ‘para obter generosos benefícios’ e que mente.

“Palocci mente sobre Lula para sair da prisão e para recuperar parte significativa dos valores que estavam em suas contas e que foram bloqueados pela Justiça”, informou o criminalista Cristiano Zanin Martins, em nota.

“Sua delação é tão mentirosa que foi recusada até pela Lava Jato de Curitiba, que sempre perseguiu Lula. Trata-se de Lawfare, quando há o uso de manobras jurídicas para manipular a política.”

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