‘Eu achava que a terra já era nossa’, diz porta-voz de comunidades indígenas

Sem bodoque e sem borduna. É com brincos de penas coloridas e colares de tiririca, minúscula semente de uma espécie de capim cortante, que Sônia Bone Guajajara tem ganhado palcos e tribunas, dentro e fora do Brasil, para falar de uma causa que já conta 517 anos e parece não ter fim. Aos 43 anos, nascida numa área indígena de um dos estados mais pobres do país e que mais desmataram o naco que lhe cabia da Floresta Amazônica — a Terra Indígena Arariboia, no Maranhão —, Sônia é coordenadora da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) e a primeira mulher a se tornar porta-voz das comunidades indígenas brasileiras.

Na última edição do Rock in Rio, em setembro, ela dividiu o palco com Alicia Keys para pedir “demarcação já” de terras indígenas. Esta semana, ela se fez ouvir na Conferência do Clima (COP-23), que terminou ontem na Alemanha. Depois de passar 20 dias percorrendo cinco países europeus, ela chegou a Bonn para pedir aos participantes da convenção o embargo a produtos de áreas onde há conflitos indígenas no Brasil — de chocolate a calçados, de soja a mineração.

— Não é a minha voz que está ali, é a voz de muita gente que paga, muitas vezes com a própria vida, para manter em pé as florestas que garantem a água e o equilíbrio climático para o planeta — diz Sônia sobre sua militância. — Os que investem em novas tecnologias para reduzir emissão de carbono esquecem que ali onde tem floresta também tem gente que briga para que as matas não sejam derrubadas. Não é só nossa cultura e nosso modo de vida que está em jogo. É a vida de todo mundo. As informações s]ao de O Globo.

Filha de mãe índia e pai caboclo (mestiço de índio com branco), Sônia saiu pela primeira vez da Aldeia Lagoa Quieta, na TI Arariboia, aos 14 anos. Seu apego ao estudo e aos livros fez com que fosse indicada pela Fundação Nacional do Índio (Funai) para uma vaga num internato da Fundação Caio Martins, em Esmeraldas, Minas Gerais.

O pai não deixou, a mãe também não, a avó muito menos. Mas ela, que nunca havia saído da aldeia, fez valer sua vontade de aprender e subiu no mesmo dia na boleia do caminhão da Funai rumo a Imperatriz, a maior cidade da região, onde embarcou num ônibus para Belo Horizonte.

Sônia foi e voltou várias vezes. Formada em magistério, voltou para lecionar na própria aldeia. Formada auxiliar de enfermagem, voltou para trabalhar com saúde indígena. Formada em Letras pela Universidade Estadual do Maranhão, ganhou o Brasil escolhida para secretariar e fazer as atas de reuniões e encontros indígenas país afora. Foi em 2001, num encontro nacional de indígenas em Brasília, que Sônia deu o primeiro passo para a liderança. Dali sairiam dois indígenas para acompanhar um encontro de quilombolas em Porto Seguro, na Bahia. E ela foi um deles.

REALIDADE FORA DA ALDEIA

Ironia do destino, foi em Porto Seguro, onde Cabral descobriu o Brasil, que Sônia se deu conta de que por trás de todos os problemas que ela escrevia em ata estava uma disputa pela terra — que começou com seus ancestrais.

— Eu achava que a terra onde a gente vivia já era nossa. Foi neste encontro que eu descobri o contexto de tudo o que eu via — conta.

Sônia retornou de Porto Seguro e ajudou a criar a Articulação dos Povos Indígenas do Maranhão. Indicada como secretária da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab), achou que era hora de parar de escrever atas e se candidatou a vice-presidente. Ganhou e ficou no cargo de 2009 a 2013. Dali para a coordenação nacional foi um percurso natural.

— Ela sabe traduzir o que acontece no mundo de fora de uma forma que todos nas aldeias entendem. E sabe falar para quem está de fora o que os índios querem dizer — diz Armindo Yanomami, um dos líderes do povo yanomami em Roraima.

A nova líder indígena faz parte de uma geração que teve oportunidade de estudar e estabelecer interlocuções mais equilibradas com membros do Parlamento, do Executivo ou da bancada ruralista. No Rock in Rio, a multidão a intimidou. Mesmo assim, foi ao palco e deu seu recado.

Na última semana, enquanto ela discursava em Bonn, grupos de ruralistas no WhatsApp distribuíam mensagens de uma entrevista onde Sônia contou que viajou com verba de ONGs que apoiam os indígenas, como a Fundação Ford. Para eles, o financiamento é uma forma de manipular os índios e dominar a Amazônia brasileira — um discurso que toma corpo em movimentos conservadores que ampliam influência no país e que, paradoxalmente, incluem grandes exportadores e defensores do investimento estrangeiro.

Sônia parece não se importar:

— Quanto mais importante a autoridade, mas à vontade eu me sinto para falar.

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