Dodge fecha portas a advogados de delatores

Há cerca de dez dias, um advogado que não conseguia, desde setembro, contato com a equipe da procuradora-geral da RepúblicaRaquel Dodge, decidiu aparecer de surpresa na sede da instituição, em Brasília. Como mora fora da capital federal, embarcou num avião e chegou à portaria que dá acesso aos prédios da Procuradoria-Geral da República (PGR) nas primeiras horas da manhã. Anunciou que era advogado, mas, como não tinha hora marcada, foi barrado ali mesmo, sem chegar à recepção. Depois de discussões e de um chá de cadeira, o criminalista conseguiu a reunião que buscava há mais de um mês.

Ele não foi o único que estava na fila para conseguir um horário com os procuradores da nova gestão. Na espera também estão pelo menos três empreiteiras que fecharam acordos de delação com a PGR, como a Odebrecht e a Andrade Gutierrez, que aguardam reunião com os responsáveis pela Lava-Jato desde a posse da nova equipe.

Representantes de candidatos a delatores, como o ex-ministro Antonio Palocci, que está preso em Curitiba, também estão sem previsão de serem recebidos. Palocci, que se mostrava otimista sobre as conversas de seus advogados com o grupo de Rodrigo Janot, antecessor de Raquel, passou a relatar a quem o visita na prisão que a retomada das conversas deve demorar mais do que o esperado. As informações são de O Globo.

Outro político preso, o ex-deputado Eduardo Cunha — que, após receber a negativa da equipe anterior, aguardava ansioso a troca de procurador-geral para fazer uma nova oferta de delação — também teve as expectativas frustradas. Representantes de Cunha sondaram o grupo de Raquel sobre possibilidades de uma conversa, mas foram avisados que os contatos estão suspensos até segunda ordem. Oficialmente, a resposta aos advogados é que a PGR está se informando sobre os casos para dar andamento às reuniões.

NOVOS PROCEDIMENTOS

Facilidades como falar com os procuradores por mensagens de WhatsApp, inclusive para marcar reuniões, ficaram para trás. Atualmente, para se encontrar com integrantes da equipe da PGR é preciso agendar hora com uma secretária por um e-mail específico.

Os telefones dos investigadores, principalmente os responsáveis pela Lava-Jato, que, na época de Janot, estavam nas agendas de todos criminalistas, passaram a ser mantidos em sigilo. Quem quiser mandar uma proposta de acordo deve seguir o mesmo caminho.

A percepção geral daqueles que conseguiram um horário com a nova gestão é que as negociações serão mais duras daqui para frente.

No primeiro contato com advogados, os procuradores vêm enfatizando que, se o interessado em fazer delação premiada não tiver documentos para corroborar os relatos, deve procurar um plano B para sua defesa.

Delações firmadas sob o comando de Janot, como a do ex-senador Delcídio Amaral, do ex-presidente da Transpetro Sérgio Machado e do ex-deputado Pedro Corrêa foram alvos de críticas por terem poucas provas diante dos fatos relatados.

Procurada pela reportagem, a PGR não quis comentar casos específicos, mas informou que está dando atenção às prerrogativas dos advogados. Afirmou que um novo fluxo de trabalho foi estabelecido por meio de um e-mail que está centralizando as informações e pedidos de reuniões.

Na avaliação da nova gestão, a comunicação por essa via é mais segura para tratar de temas sensíveis e sigilosos como os abordados nos acordos de delação.

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