Com volta da Covid-19 na Europa, SUS precisa estocar remédios e EPIs, diz Nicolelis

O neurocientista brasileiro Miguel Nicolelis Foto: Reprodução

O aumento de casos na Europa e Estados Unidos deve acender um alerta em gestores brasileiros. A avaliação é do neurocientista e professor catedrático da Universidade de Duke (EUA) Miguel Nicolelis, que coordena o Comitê Científico do Consórcio Nordeste para a Covid-19.

Segundo Nicolelis, o país precisa fazer um estoque de remédios e equipamentos de proteção individual (EPI) agora para não se ver sem os produtos caso eles se tornem escassos no mercado internacional como no começo da pandemia. Outra medida sugerida é a suspensão de voos internacionais da Europa para o Brasil.

Apenas na semana passada, mais de 8 mil pessoas morreram de Covid-19 na Europa. O continente voltou a tomar medidas duras para conter um novo avanço da doença. Neste domingo, por exemplo, a Itália bateu pelo quarto dia seguido seu recorde diário de novos casos de Covid-19.

O Brasil deve se preocupar com o aumento de casos na Europa?

Sim. Já ficou claro que a segunda onda está instalada com ainda mais força. No Reino Unido, por exemplo, a situação já está fora de controle. Apesar da mortalidade estar reduzida, menor na primeira onda, o número de casos está varias vezes mais alto. Faz lembrar o que aconteceu no Brasil na primeira onda. Em contato com amigos meus, percebi que a rotina dos voos no Brasil está voltando ao normal e, com o aumento de casos na Europa, pode haver uma avalanche de pessoas fugindo de lá, onde será inverno, para os trópicos. E os EUA estão indo para o terceiro pico. Tem que ter um olhar global. É uma pandemia, o próprio nome já diz. Não pode fazer planejamento do Nordeste, do Brasil sem acompanhar a situação mundial. Isso é determinante para a atuação local.

O Brasil vê uma tendência na queda dos números. Isso pode ser afetado?

Sim. Estamos em tendência de queda, mas ainda com um platô alto. Qualquer novo evento pode fazer essa instabilidade disparar para cima. Temos que nos preparar agora. Isso significa pensar em fechar o espaço aéreo brasileiro, reabastecer de máscaras, testes, EPIs, medicamentos. Tudo que faltou no primeiro momento da nossa crise. E tem que preparar a população para a possibilidade de retorno de restrições mais rígidas como está acontecendo na França, Alemanha e Portugal.

A necessidade de estocar esse material é para se prevenir do aumento de demanda?

Sim. Isso tudo vai sumir do mercado internacional de novo. Na primeira fase da pandemia, a Malásia, que tem as maiores produções de máscara do mundo, indicou que não ia dar conta da demanda. Se a gente atuar da mesma forma que no começo do ano, se não nos mexermos antes, quando precisar importar esse material não vai ter nada no mercado internacional. As pessoas estão contando com a vacina e não temos nada concreto ainda.

Que outras medidas são necessárias para o Brasil evitar esse novo crescimento de casos?

Eu já estou pensando no final do ano. Nas festas que, em  teoria, não deveriam ocorrer. Deveriam ser coisas familiares, restritas. Se a maioria de lugares cancelou o carnaval, o réveillon é a próxima bomba relógio. É ainda mais preocupante do que o carnaval, que é uma uma festa nacional. Vem muita gente do exterior. Inclusive, a qualquer instante, os EUA devem fechar o espaço aéreo para a Europa, como já aconteceu nesse ano.

O senhor defende treinar e equipar brigadas emergencias de saúde em todo o país. O que são essas brigadas?

Uma das primeiras recomendações que sugerimos no Comitê Científico do Consórcio Nordeste para a Covid-19 foram as brigadas emergenciais de saúde. É um grupo de profissionais de saúde que vão nas casas das pessoas para atender casos suspeitos. No nosso último relatório, o estado que melhor se saiu nessa atuação foi o Piauí. Ele teve mais de 220 brigadas e usou 53 mil testes para descobrir mais de 16 mil casos que não estavam notificados. Isolar esses doentes está impedindo centenas de milhares de infecções. Essa estratégia tem que ser adotada em todo o país.

O senhor liderou um trabalho identificando que a curva epidemiológica do coronavírus foi adiada em regiões atingidas pela dengue em 2019 e 2020, o que aponta uma possível similaridade na resposta imunológica aos dois patógenos. Há novas descobertas?

Estamos ampliando esse estudo, fazendo um levantamento em mais de cem países, inclusive com dados detalhados do México e Colômbia. Em Israel, um grupo analisou 95 amostras de sangue de pessoas que tiveram dengue e 22 deram falso positivo para coronavírus. Esse sangue foi colhido em setembro de 2019. Então não poderia ser Covid-19. O que acontece é que o soro das pessoas tinha alguma coisa que reagiu com os antígenos do coronavírus e deu falso positivo. Isso me deu um reforço muito grande da minha tese. Eles acharam independentemente da nossa pesquisa.

O Globo

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