Cármen Lúcia diz que sociedade brasileira é ‘patrimonialista’ e ‘machista’

Cármen Lúcia

A presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Cármen Lúcia, afirmou que a sociedade brasileira ainda é “patrimonialista” e “machista”. Ela participa, na Embaixada da França, do seminário “Mulheres na Justiça”, no qual estão presentes também a procuradora-geral da República (PGR), Raquel Dodge, e a advogada-geral da União (AGU), Grace Mendonça.

Cármen iniciou sua exposição afirmando que o fato de mulheres estarem no comando das principais instituições da Justiça é uma “circunstância” e não um retrato de que o país superou os problemas de gênero. Ela destacou que não há previsão de que isso se repita no curto prazo.

— Vivemos em uma sociedade patrimonialista, machista, que é a sociedade brasileira — disse a presidente do STF. As informações são de  EDUARDO BRESCIANI, O Globo.

Ela destacou que na Constituição de 1988 foi colocado pela primeira vez a igualdade entre “homens e mulheres”. Cármen afirmou que “o pior problema do Brasil é a desigualdade”, destacando que ocorre em outras áreas, como a questão econômica.

Cármen destacou que o número de mulheres na Câmara não chega a 10%, enquanto o país tem 54% de eleitores. Observou que ainda não há grande percentual de mulheres no Judiciário e no Ministério Público. A presidente do STF refutou que as mulheres que atuam no sistema de justiça são mais rigorosas.

— É comum dizer que nós mulheres somos mais rigorosas. Eu não consigo aquilatar isso. Há mulheres mais garantistas e outras mais rigorosas — disse a presidente do STF.

Ela ressaltou que em cargos de juízes de execução penal as mulheres sofrem mais ameaças do que homem. Afirmou não haver como pedir a uma juíza dessa área que entre sozinha em um presídio. Enfatizou que todos os modelos de poder são desenhados para serem exercidos por homens.

Cármen citou casos em que sua posição de ministra foi “estranhada” por populares, como entregadores e empregadas de amigas suas. Disse que mulheres em cargos de destaque possuem até uma cobrança contra “se apaixonar”.

— Quando se vê um juiz namorar, eu acho bom, acho que juiz tem de ser feliz. Mas aí de mim se me apaixonar. Porque tenho que sufocar. Tem de escolher entre a paixão ou o cargo. A cobrança de uma conduta quase monástica é extremamente comum. Isso se dá em todos os lugares. Não apenas aqui (no Brasil) — afirmou a presidente do STF.

A presidente do STF concluiu dizendo que o Brasil é uma país de homens e mulheres de coragem e citou a Operação Lava-Jato como um exemplo disso.

— Se não tivéssemos coragem, não estaríamos enfrentando a Lava-Jato – afirmou Cármen, dizendo ser preciso “terminar esse processo”.

A advogada-geral da União também usou a expressão “machista” para se referir à sociedade brasileira e citou casos nos quais vivenciou o tratamento diferenciado à mulher. Contou que quando fez uma sustentação oral no Supremo antes de ser titular do posto, o então chefe da AGU questionou aos demais advogados se gostaram da exposição de sua “assistente”. Ela não revelou em qual gestão o fato teria ocorrido. Grace concluiu afirmando que há uma pressão maior sobre as mulheres que chegam a cargo de comando justamente para se evitar que sua atuação possa impedir outras de chegar a esses postos.

— Se vacilarmos, vão dizer: olha aí, viu como não ia dar certo colocar uma mulher para chefiar? Não podemos errar. Isso impõe um ônus mais pesado — afirmou Grace.

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