Delator-chave é excluído de petição contra Alckmin

O governador Geraldo Alckmin participa do sorteio de casas populares, pelo programa CDHU em Patrocínio Paulista (SP), na manhã desta sexta-feira (21).

THAIS BILENKY – Folha de são Paulo

Peça-chave no suposto esquema de caixa dois da campanha de Geraldo Alckmin (PSDB) em 2014, o delator Luiz Bueno não foi incluído na petição contra o governador de São Paulo.

Então chefe da Odebrecht em São Paulo, Bueno teria sido o responsável por negociar o valor e organizar os repasses a um interlocutor de Alckmin em 2014, segundo relatos que integram a peça da PGR (Procuradoria-Geral da República).

O ex-executivo da empreiteira foi apontado por dois outros delatores como o articulador da operação com Marcos Monteiro, hoje secretário do governo. A delação de Bueno está em sigilo.

Arnaldo Cumplido, então diretor de contrato da Odebrecht com a Linha 6 do Metrô de SP, afirmou aos procuradores que Bueno “mandava cada programação com codinome e o valor”.

“O Bueno que me avisava que era para fazer aporte de recursos na modalidade de caixa dois para a campanha do governador Geraldo Alckmin”, afirmou. “Eu não tinha contato com o governador ou com o Marcos Monteiro.”

Ao final de seu depoimento, o procurador pergunta “quem saberia explicar em detalhes a contrapartida e o motivo pelo qual os pagamentos foram feitos”. Cumplido responde: “Dentro do que eu imagino, o Luiz Bueno”.

Acima dele estava Benedicto Junior, que era o presidente da construtora Odebrecht. Em sua delação, ele reforçou o papel central de Bueno na operação. “Ele [Monteiro] procurou o Luiz Bueno e foram os dois que acertaram o pagamento”, disse.

Segundo os delatores, Alckmin recebeu R$ 8,3 milhões em 2014 e R$ 2 milhões em 2010 não declarados.

O tucano nega. Diz que “jamais” pediu recursos irregulares nem autorizou que o fizessem em seu nome. “Sempre exigi que minhas campanhas fossem feitas dentro da lei”, afirmou.

Nesta semana, Alckmin voltou a dizer que “é preciso ter cuidado com delação. Tem muita coisa que não tem nada, nada… Não tem relação uma coisa com a outra”.

A Procuradoria não explicou por que a delação de Bueno não foi incluída no documento entregue ao Supremo Tribunal Federal nem se observou discrepâncias entre provas e depoimentos. Observou, contudo, que nada impede a Justiça de requerer depoimentos de Bueno se for dada sequência ao caso.

INCONSISTÊNCIAS

Há outras lacunas nas delações que implicam o governador de São Paulo. As planilhas entregues pelos três delatores que embasam a petição apontam valores diferentes dos informados nos depoimentos.

Benedicto Junior relatou que Marcos Monteiro pediu R$ 10 milhões para a campanha de Alckmin em 2014, mas que a Odebrecht repassou R$ 8,3 milhões. Como prova, ele entregou sete documentos do sistema usado para gerenciar as propinas. Somados, os repasses apresentados foram de R$ 6,5 milhões.

Em sua delação, Arnaldo Cumplido apresentou apenas um documento, que comprova supostamente um único repasse de R$ 500 mil. No depoimento a procuradores, ele confirmou planilhas citadas pelo Ministério Público que somavam R$ 6,3 milhões.

Em 2010, quem chefiava a Odebrecht em São Paulo era Carlos Armando Paschoal. Ele disse aos procuradores que doou R$ 2 milhões por meio de caixa dois a Alckmin naquele ano, valor repetido por Benedicto Junior.

Mas, de novo, as planilhas têm discrepâncias.

No caso de Junior, uma tabela aponta uma soma de R$ 3,2 milhões. Questionado pelo procurador sobre a divergência no valor informado, ele disse que “infelizmente não fiz a análise crítica, mas pode ter repetido”.

As planilhas apresentadas por Junior, por sua vez, apontam pagamentos no total de R$ 2,1 milhões e R$ 200 mil em “bônus”, que, segundo ele, seriam doação oficial.

No caso de Paschoal, a tabela inicial confirma repasses de R$ 2 milhões. Nas planilhas, porém, o montante é de R$ 1,8 milhão –e R$ 200 mil em “bônus”.

A petição requerida pela Procuradoria foi acolhida pelo STF no início de abril, mas, como os casos de outros seis governadores, ainda não foi enviada ao Superior Tribunal de Justiça, órgão que julga os chefes do Executivo estadual.

Segundo a Folha apurou, o ministro Edson Fachin, relator da Operação Lava Jato no STF, determinou que as petições sejam entregues por correio. No STJ, aguarda-se o recebimento de todos os casos para o exame de cada um.

OUTRO LADO

A defesa de Benedicto Jr., ex-presidente da construtora Odebrecht, disse que “pequenas divergências são absolutamente comuns e os eventuais esclarecimentos podem ser feitos no decorrer da colaboração, que é um processo contínuo de auxílio à Justiça”.

A Odebrecht disse em nota que é responsabilidade da Justiça a avaliação de relatos específicos feitos pelos seus executivos e ex-executivos.

“A empresa está colaborando com a Justiça no Brasil e nos países em que atua. Já reconheceu os seus erros, pediu desculpas públicas, assinou um acordo de leniência com as autoridades brasileiras e da Suíça e com o Departamento de Justiça dos EUA, e está comprometida a combater e não tolerar a corrupção”.

A defesa de Carlos Armando Paschoal não quis se manifestar.

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