Acordo de delação impõe a JBS multa de R$ 250 milhões

JBS

Valor que será cobrado de irmãos Joesley e Wesley Batista pelo MPF é considerado baixo para o porte do conglomerado empresarial

Josette Goulart, O Estado de S.Paulo

O acordo fechado pelos irmãos Joesley e Wesley Batista, do grupo JBS, com o Ministério Público Federal, prevê imunidade total para eles. Os procuradores se comprometeram a nem sequer abrir um processo pelos crimes que os empresários relataram, em que expuseram centenas de políticos, funcionários públicos e ex-parceiros. Além disso, a multa acertada gira em torno de R$ 250 milhões, número considerado baixo, dado o porte da empresa e as cifras bilionárias já acertadas com outras empresas envolvidas na Lava Jato.

As condições “suaves” do acordo chegaram a provocar indignação em pessoas que já fizeram negócios com o grupo, que acreditam que os crimes cometidos deveriam ter alguma punição, por menor que fosse. Os empresários também tiveram permissão para continuar comandando os negócios. Mas as condições do acordo podem mudar caso deixem de prestar alguma informação sobre irregularidades.

As irregularidades cometidas pelo grupo envolvem principalmente a compra de apoio político, mas suspeitas de outras condutas pouco ortodoxas ainda são relatadas, mesmo depois de os empresários já terem negociado uma delação premiada. Desde a semana passada, segundo informações de três mesas de operação de câmbio, a JBS e pessoas ligadas à empresa começaram a comprar dólar. Na quarta-feira, às vésperas da divulgação da delação, a aquisição teria chegado acerca de US$ 1 bilhão. Não há confirmação oficial. Mas, somente de quarta para ontem, se compraram de fato os dólares com base em uma informação que só eles tinham, ganharam mais de 8%.

Propinas. O crescimento do JBS, cujo faturamento saiu de R$ 4 bilhões para R$ 170 bilhões em dez anos, tem uma relação muito direta com a relação que a empresa tinha com políticos. Somente em doações oficiais, foram cerca de R$ 400 milhões na eleição de 2014. Mas as denúncias dão conta de que o grupo pagava outros tantos milhões em propinas para ter empréstimos da Caixa, ou conseguir uma medida provisória favorável.

Foi assim que Joesley estabeleceu relação com Eduardo Cunha e o corretor Lúcio Funaro, considerado o operador do ex-presidente da Câmara. Mas as conexões iam além: nos governos petistas, passavam por Antônio Palocci e, mais tarde, por Guido Mantega. “Joesley era assim, se ele sabia que o político podia resolver a vida dele, ele colava no cara. E era colar mesmo. Ligava todo dia”, diz um ex-parceiro de negócios do empresário. Assim, foi obtendo bilhões do BNDES, de fundos de pensão, que ajudaram no início da expansão acelerada da empresa. Depois a bicicleta rodou sozinha: foram centenas de aquisições, financiadas por bancos e investidores.

Hoje, quase 80% da receita do grupo vem de fora do Brasil. No ano passado, Joesley já queria ter transferido a sede da JBS para o exterior, com o argumento de que, com isso, teria acesso a dinheiro mais barato. O BNDES, seu sócio, vetou. Conseguiu, no fim do ano, transferir pelo menos a Seara para o guarda-chuva da JBS Foods International. Agora, o passo para os Batista é negociar um acordo com as autoridades americanas, já que a empresa responde à lei anticorrupção americana. Mas não dá para saber se as condições serão como as do Brasil. Mesmo com os acordos, segundo alguns analistas, a empresa terá de se reestruturar e vender ativos que não estão na origem dos negócios para não ser afetada financeiramente.

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